Igreja de São Pedro e São Paulo, Istambul — um recanto católico em Galata, ao pé da torre
Na estreita rua Galata Kulesi Sokak, a poucos passos da imponente estrutura de pedra da Torre de Galata, esconde-se um edifício que é fácil passar sem reparar — uma fachada austera, quase sem decoração, uma porta pesada, pombais sob o telhado. Esta é a Igreja de São Pedro e São Paulo, em Istambul — um templo católico dominicano em funcionamento, com uma história que remonta ao século XV, quando a Galata genovesa ainda ressoava com a língua italiana. A Igreja de São Pedro e São Paulo, Istambul — um caso raro na cidade, onde um pequeno edifício liga de uma só vez várias épocas: os patronos genoveses Zaccaria, os firmanes dos sultões otomanos, o protetorado dos reis franceses, os incêndios de Galata e a meticulosa restauração dos irmãos suíço-italianos Fossati. No interior, sob a cúpula azul-celeste com estrelas douradas, ainda hoje se celebra a missa em italiano para a comunidade maltesa local.
História e origem da Igreja de São Pedro e São Paulo, Istambul
As raízes desta comunidade remontam ao turbulento ano de 1475. O sultão Mehmed II, o Conquistador, transformou a igreja dominicana de São Paulo, em Galata, numa mesquita, e os monges tiveram de procurar um novo refúgio. Em 1476, mudaram-se duzentos metros para leste, abaixo da Torre de Galata, para uma casa com capela situada em terrenos pertencentes à ilustre família genovesa Zaccaria. A capela pertencia inicialmente à família Bisticcia, mas na altura da mudança dos dominicanos os proprietários já eram os Zaccaria — provavelmente, a propriedade lhes foi transmitida por herança, e não foi comprada.
Em 1535, os dominicanos assinaram formalmente um acordo com Angelo Zaccaria, neto do próprio Antonio, ao abrigo do qual a comunidade se instalou neste terreno. O próprio acordo era apenas uma prorrogação de acordos antigos: nas suas primeiras linhas afirma-se explicitamente que a igreja tinha sido cedida à ordem muito antes dessa data. As condições repetiam-se a cada doze anos: os genoveses continuavam a ser os patronos, supervisionavam as finanças dos monges e podiam destituir os clérigos culpados, enquanto estes se comprometiam a pagar as reparações e, na festa da Candelária (Candelora), a oferecer à família uma vela consagrada, celebrando uma missa de memória pelos falecidos Zaccaria.
Em 1603–1604, a capela foi reconstruída, transformando-se numa igreja de pleno direito com um mosteiro. Em 1608, um firman do sultão Ahmed III colocou o complexo sob a proteção do rei de França, e a República de Veneza concedeu uma subvenção anual. Em 1640, foi para cá transferido um grande ícone da Mãe de Deus do tipo Odigitria, originário da igreja dominicana de Caffa (Crimeia) e posteriormente guardado na igreja de Santa Maria di Costantinopoli, que nesse ano também se tornou uma mesquita. Em 1660, a igreja e o mosteiro arderam completamente — apenas a ícone sobreviveu — e, de acordo com a lei otomana, o terreno voltou para o fisco. Mas, graças aos esforços das potências europeias, em 1702 foi construída uma nova igreja no mesmo local. Depois de os dominicanos se terem recusado a entregar a Odigitria a Veneza em 1706, a república suspendeu os subsídios. Mais um incêndio — o grande incêndio de Galata de 1731 — destruiu o edifício, que foi reconstruído em madeira. Finalmente, entre 1841 e 1843, os arquitetos suíço-italianos, os irmãos Gaspare e Giuseppe Fossati, ergueram o atual edifício de pedra.
Arquitetura e o que ver
Externamente, a igreja é sóbria quase até à austeridade: foi integrada na densa malha do bairro genovês, e da rua só se vê a fachada alta, coroada por uma pequena abertura para o sino. Tudo o que há de mais interessante revela-se quando se atravessa o estreito pátio-corredor e se cruza o limiar do templo.
Basílica com altar quadrifacial
A planta da igreja é a de uma basílica clássica com a parte do altar disposta de forma a que o altar esteja virado para os fiéis de vários lados. Sobre o coro ergue-se uma cúpula de cor azul-celeste, salpicada de estrelas douradas — um dos detalhes mais reconhecíveis do interior. Este recurso é raro nas igrejas católicas de Istambul e distingue imediatamente São Pedro das vizinhas São António e Santa Maria Draperis. A arquitetura de Fossati aqui é deliberadamente modesta: os irmãos tinham acabado de regressar da Rússia, onde trabalharam na corte de Nicolau I, e o projeto da igreja serviu-lhes de «aquecimento» antes da sua principal obra em Istambul — a restauração em grande escala da Hagia Sofia, entre 1847 e 1849.
Muralha das fortificações genovesas
Uma das características mais invulgares do templo é a sua parede traseira. Esta está incorporada diretamente numa secção preservada das antigas fortificações genovesas da cidade do século XIV, as mesmas que protegeram a colónia de Génova em Constantinopla até 1453. Assim, quem reza no interior da igreja tem as costas apoiadas nas pedras das fortificações medievais — um exemplo raro em que um edifício de culto continua a existir graças à arquitetura militar de uma época anterior.
Ícone da Hodegetria de Caffa
O principal tesouro do templo é a ícone da Mãe de Deus do tipo Hodegetria, transferida em 1640. Ela chegou a estar na igreja dominicana de Caffa, na Crimeia (atual Feodosia) — através das rotas comerciais genovesas, a Crimeia e Galata foram durante séculos «uma única rua» —, passando depois por Constantinopla e sobrevivendo milagrosamente a dois incêndios: em 1660 e em 1731. No início do século XVIII, foi parcialmente reescrita: a túnica da Virgem Maria foi coberta com «lírios da França» bordados — Fleur-de-lis, uma referência ao protetorado real. Considera-se que apenas o rosto e o peito permanecem da imagem original.
Relíquias e um pátio estreito com lápides
A igreja guarda as relíquias de São Renato, descobertas nas catacumbas de Galata, bem como fragmentos das relíquias de São Tomás, São Domingos e dos apóstolos Pedro e Paulo, que deram nome ao templo. A leste da entrada estende-se um pátio-passagem estreito, como se tivesse sido cortado por uma faca: as suas paredes altas estão totalmente cobertas de baixos-relevos e lápides com inscrições — principalmente em italiano. Mais alguns túmulos encontram-se na cripta sob a igreja. Para o viajante de língua russa, este pátio parece quase um cemitério italiano do século XIX, que por milagre sobreviveu no centro de Istambul.
Saint-Pierre Han nas proximidades
Junto à igreja encontra-se o Saint-Pierre Han — um edifício de caravançarai que outrora pertenceu à igreja como «apoio» comercial. Inicialmente construído em madeira em 1732, o caravançarai ardeu em 1770 e foi reconstruído em 1771–1772 em pedra resistente, por iniciativa do embaixador francês François-Emmanuel Guignard de Saint-Pri. Ao longo do tempo, aqui instalaram-se a Ordem dos Advogados de Istambul, a Câmara de Comércio Italiana, o Banco Otomano (no piso superior, entre 1856 e 1893), um fabricante de mostarda e até uma oficina de jeans sob a marca Muhteşem Kot — «Jeans Magníficos». Na viragem dos séculos XIX e XX, o han tornou-se o local de eleição de gabinetes de arquitetura: aqui trabalharam Alexandre Vallori, Ovsep Aznavour, Giulio Mongeri e o designer Alexandre Neocosmos. Vallori colocou no edifício uma placa comemorativa em homenagem ao nascimento, neste local, em 1762, do poeta francês André Chénier. Desde 2011, o han é alugado pela fundação educativa Bahçeşehir Uğur, que planeia, em conjunto com a Câmara Municipal de Istambul, transformá-lo num centro cultural.
Factos e lendas interessantes
- A ícone da Odigitria de Caffa é considerada uma das ícone protetoras de Constantinopla: atribui-se a sua autoria ao próprio evangelista Lucas. Era precisamente esta ícone que os dominicanos salvavam em primeiro lugar em todos os incêndios.
- Desde o século XVIII, a igreja foi uma das três paróquias católicas de Galata sob a coroa francesa — a par da jesuíta de Saint-Benoît e da capuchinha de Saint-Georges.
- Os livros de registos da paróquia — casamentos, batismos, funerais dos séculos XVIII–XIX — são considerados uma fonte inestimável para a história da emigração europeia para Istambul: através de Galata chegavam à cidade italianos, malteses, levantinos e refugiados de vários cantos do Mediterrâneo.
- Os irmãos Fossati, que construíram a igreja atual entre 1841 e 1843, apenas alguns anos mais tarde, encarregaram-se da restauração de Santa Sofia por ordem pessoal do sultão Abdul-Mejid — um caso raro em que os mesmos arquitetos trabalharam tanto na principal mesquita do império como na pequena paróquia católica de Galata.
- Na parede de Saint-Pierre Khan ainda se encontra uma placa comemorativa, cuja instalação foi ordenada por Alexandre Vallori: ela recorda que aqui, segundo as crenças da época, nasceu em 1762 o poeta André Chénier — um dos heróis da Revolução Francesa.
Como chegar
A igreja fica na Galata Kulesi Sokak 44, Kuledibi — ou seja, literalmente «sob a Torre de Galata». Oriente-se pela própria torre: descendo dela em direção ao Bósforo pelas ruas estreitas e empedradas, chegará à igreja em 3 a 5 minutos a pé. O transporte público mais conveniente é a linha de metro M2 (estação Şişhane) e o famoso funicular histórico Tünel: da sua estação inferior em Karaköy até à igreja são cerca de 7 a 10 minutos a pé, subindo a colina.
Uma rota alternativa é o elétrico T1 (Bağcılar — Kabataş) até à paragem de Karaköy, seguindo depois a pé pela Galata Kulesi Caddesi ou de funicular Tünel até à estação de Karaköy e, a partir daí, por uma pequena rua lateral. A partir do Aeroporto de Istambul (IST), o mais conveniente é apanhar o metro M11 até Kağıthane, com transbordo para o M7 até Şişhane. A partir do Aeroporto Sabiha Gökçen (SAW) — de autocarro Havabus até Taksim e, em seguida, a pé pela Istiklal ou no Tünel. A entrada na igreja é gratuita, mas só é possível entrar durante o horário em que os portões estão abertos — normalmente durante a primeira metade do dia e na hora das missas; no resto do tempo, o porteiro abre a porta mediante pedido.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é a primavera (abril–maio) e o outono (setembro–outubro): nas ruas estreitas de Galata não há sombra, e no verão o ambiente é abafado, enquanto no inverno a chuva torna as lajes de mármore e as escadas escorregadias. Reserve 30 a 60 minutos para a visita: a igreja é pequena, mas apetece ficar junto à ícone da Odigitria, decifrar as inscrições nas lápides do pátio e erguer o olhar para a cúpula azul com estrelas. Se assistir a uma missa em italiano (normalmente aos domingos de manhã), é melhor adiar as fotografias e simplesmente sentar-se nas filas de trás — trata-se de uma paróquia ativa da comunidade maltesa, e não de um museu.
Os fotógrafos devem saber que a fachada exterior não fica bem nas fotos devido à estreiteza da rua: as melhores imagens são tiradas a partir do interior do pátio e da passagem lateral com as lápides, onde a luz lateral incide sobre as placas esculpidas. No interior, o flash é proibido, mas a luz natural que entra pelas janelas superiores é suficiente para fotografar com um smartphone moderno. Leve consigo trocos em euros ou liras — para uma vela e para a caixa de donativos; é uma forma tácita de agradecimento pelo acesso livre. O vestuário deve ser o mesmo que em qualquer templo em funcionamento: ombros e joelhos cobertos, voz baixa.
Logisticamente, a igreja encaixa-se na perfeição num passeio de meio dia por Galata: a Torre de Galata (2 minutos a pé) com vista para o Corno de Ouro, o funicular Tünel de 1875 — o segundo mais antigo do mundo, a rua Istiklal com o seu elétrico nostálgico, a igreja de Santo António de Pádua na Istiklal, as oficinas na Galip Dede Caddesi. Os amantes das semelhanças entre a Rússia e Istambul encontrarão aqui ecos de Odessa e Feodosia: o comércio genovês, o ícone da Crimeia, a comunidade levantina — tudo isto faz parte do mesmo mundo mediterrânico que, no século XIX, unia Istambul, a Crimeia e a região do Mar Negro num único arco cultural. É precisamente por isso que a Igreja de São Pedro e São Paulo, em Istambul, deve ser visitada não como «mais uma igreja», mas como um pequeno nó de memória, onde se cruzam Génova, França, Veneza, a Crimeia e o Império Otomano — e onde hoje, sob a cúpula azul com estrelas douradas, a paróquia continua viva.